Carta a um Pai.

Pai,

Te escrevo tentando traduzir em palavras os sentimentos que borbulham em minha alma de forma incontrolável.

Somos tão parecidos em alguns aspectos né? Puxei a sua determinação, sua transparência e sinceridade, mas o mais engraçado é que ao invés de isso nos aproximar, apenas nos distância.

Apesar da facilidade que tenho em demonstrar meus sentimentos, eu nunca te disse o quanto te admiro e poucas vezes disse o quanto te amo. Não que eu não tenha tido vontade e acredite que foram incontáveis as vezes que quis, mas me faltou coragem.

Deve ser engraçado me ver falar de coragem né? Afinal sempre tive tanta coragem e determinação para falar e fazer o que sempre quis, te enfrentei em tantos momentos...mas quando o assunto é falar do que sinto pelo senhor, ainda sou apenas uma menina com medo...

Vejo o quanto te decepcionei, afinal de contas nunca me enquadrei nos padrões que a sociedade determina. Enquanto as meninas brincavam de boneca eu estava aprendendo a jogar bolinha de gude, soltar pipa ou jogar futebol com os meninos.

Na adolescência, no auge da descoberta e na ânsia de viver me via pressa nos seus cuidados. Esta foi uma das fases mais difíceis da nossa relação, já que neste período eu contrariei tudo que o senhor poderia desejar pra minha vida. Aos quinze anos me envolvi com uma mulher e sai de casa aos dezesseis para viver esse amor. Tenho plena consciência que o fiz sofrer demais e que poderia ter evitado toda essa dor se tivesse te dado ouvido. Também sei que o senhor tinha razão quando me disse que eu me machucaria. Mas também tenho plena consciência que eu não me perdoaria por não ter me dado a chance de viver aquele sentimento. Aprendi muito vivendo essa experiência.

Voltei pra casa depois de quatro anos e algum tempo depois me vi novamente apaixonada por alguém que fugia dos padrões que eu senhor acreditava ser o melhor pra mim. Esta relação me trouxe o maior presente de todos...me tornei mãe.  Apesar de não ser a relação dos seus sonhos sei que gostaria que eu permanecesse casada, mas eu já não estava feliz e novamente contrariei sua vontande...me separei e voltei para sua casa.

Não entrei na faculdade, não me casei nos papéis e na igreja, não tenho imóveis ou bens materiais, não falo outras línguas, tenho um passado que te causa constrangimento entre os familiares e a sociedade...enfim, sou o contrário daquilo que o senhor sonhou.

Me perdoe por não ser a filha que o senhor idealizou.

Mas gostaria que soubesse que mesmo sendo o oposto daquilo que desejas, eu daria minha vida por você.  O senhor não faz idéia do quanto essa ausência de palavras entre nós me causa um mal na alma indescritível. Gostaria que mesmo sem entender as decisões que tomo na minha vida, não me rejeitasse, porque em todas elas eu só procuro a minha felicidade e nem sempre aquilo que o senhor acredita será a minha verdade.

Pai, aprendi vivendo que amar nem sempre significa compactuar com os mesmos pensamentos e decisões,  mas significa aprender a respeitar o outro e tentar compreender o que os motiva.  Não te peço que tenha os mesmos pensamentos que eu...mas sim que tente entender que só estou em busca do que eu acredito ser certo e isso não altera em nada, exatamente nada o amor que sinto pelo senhor.

Não me prive de ouvir sua voz direcionada a mim, não me prive do seu abraço e do seu cuidado.  Não me prive do seu amor, porque pior do que estar longe fisicamente de você e te ter perto e ter um abismo entre nós.

Não sou e nunca serei a filha ideal Pai, mas ainda sim sou sua filha e te amo como tal.

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